...É tão difícil a partilha daquilo que julgamos ser nosso. Porque nos habituamos a ser assim. Porque esse sempre foi o caminho mais fácil.
É tão difícil perceber a sinceridade daqueles que nos rodeiam. E tão mais fácil optar por não confiar. E mais uma vez, guardar dentro de nós.
É tão difícil distinguir olhares verdadeiros, sorrisos sinceros, afetos sentidos...porque o caminho sempre foi desconfiar e colocar de lado. Questionar e não deixar aproximar...
...É ainda mais difícil quando nos sentimos próximas de alguém e sentimos que essa pessoa é o nosso porto seguro, o porto de abrigo que nunca tivemos. O porto seguro das marés boas e das menos boas. E saber partilhar isso mesmo? É uma aprendizagem. Dolorosa.Muito.
E tentamos reaprender essa tal partilha.
A capa que mantivemos tanto tempo e que atenuou inúmeras vezes o holocausto dentro da nossa mente e do nosso coração tende a descair, aos poucos.
A sensação é de prazer imenso por termos imensa vontade de desabafar com alguém que não está tanto "por dentro" das nossas coisas, alguém neutro. Mas também aparece o medo. De falar e começar a chorar com as coisas menos boas. De dizer e não ser entendida como gostaríamos. De desabafar e começar a ficar habituada e posteriormente sentir falta desse ombro e desses ouvidos...dessa pessoa...
É tão difícil contar com as pessoas. É tão bom mas tão angustiante ao mesmo tempo, nem sei se me faço entender...
Sempre fui habituada a não partilhar. Ou habituei-me a mim mesma, já não sei.
Sempre guardei dentro de mim aspetos bons e aspetos maus. Os bons porque os considerava tão meus que não encontrava necessidade de os partilhar. E os maus, guardei porque sabia que ao falar o minimo que fosse as lágrimas caiam e não gosto de chorar ao pé das pessoas. E quanto mais se partilha, mais fracas ficamos, mais fragéis. Mais necessitadas e carenciadas dessa atenção que a outra pessoa nos dá...e depois se ela vai embora, como ficamos? Sozinhas novamente. Portanto mais vale prevenir...pensava eu, sempre.
Se olhar agora para trás...já contei com algumas pessoas. Ao fim de algum tempo acabo por me dar a conhecer, confio e partilho algumas coisas minhas...mas depois... sozinha outra vez...a verdade é essa. Dai ser fria muitas vezes. Dai ser independente. Dai ser distante para quem não conhece. Dai exigir daqueles que me são próximos alguma sensibilidade e atenção para quando me decido a partilhar...mas sabes, fico insatisfeita, na maioria. A minha melhor amiga está ausente, e bem ausente. As minhas amigas da terra, cada uma tem uma "psicose" associada que não se chega a perceber muito bem o sentido que dão à vida delas mesmas. Os amigos da licenciatura estão mais afastados e somente se cruzamos em jantares "familiares", agradáveis sem dúvida, mas um pouco impessoais. No trabalho cada uma olha para o próprio umbigo. Na noite, é tudo uma ilusão com falta de nível e cada vez mais banal...portanto sobra pouco...mas como diria alguém...qualidade não é sinónimo de quantidade.
Restam as pessoas. As poucas pessoas que se preocupam sim. Tenho de acreditar nisso. Começar a acreditar.
Restam as pessoas que me olham na verdadeira essência e que me fazem "descair a capa"...as pessoas que me põem a nu...no verdadeiro sentido da palavra...os sentimentos brotam, as palavras saem, as lágrimas pendem e voilá...desabafo e sinto um alivio. desabafo e oiço uma opinião sem ser a da minha mente. Desabafo e partilho. Desabafo e alivio a tensão.
Mas nem sempre consigo. Nem sempre é fácil confiar sem temer.
Os meus pais são as pessoas. A mãe é a pessoa.
Tu és a pessoa. E não tenho forma de te "agradecer" todas as vezes que "furas" a minha carapaça.
A minha tia era a pessoa. E ainda é. Nas minhas horas de silêncio. Nos meus medos interiores. Nas minhas vitórias.
Os amigos da terra são as pessoas. Apesar das lacunas. Tenho aprendido a limitar as minhas necessidades de os procurar e isso tem-me ajudado a não ficar tão magoada com certas atitudes. Não sou tão exigente com eles.
O trabalho, no geral, é a pessoa (imaterial). Enerva-me mas dá-me garra para caminhar. Para ser sempre melhor. Dá-me alento para acordar todos os dias e fazer aquilo que gosto.
Estas são as pessoas que me rodeiam, que partilham comigo vitórias e derrotas, que percorrem comigo ensinamentos. Pessoas que demonstram ser o meu porto seguro, onde posso baixar a guarda e perceber que não tenho nem posso de aguentar tudo sozinha...como sempre ou como quase sempre foi.
Opção minha ou da própria vida....não interessa hoje. Interessa sim perceber que existe outro caminho...e mudar e aproveitar o colo e o carinho daqueles que realmente fazem sentido...à minha vida.
Obrigada por seres também tu "A Pessoa".
Com carinho
(A)caso
20/05/2015
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